Caminho de Tropeiro

Coxilha Rica

Escondido nos confins da serra catarinense existe um lugar que preserva sua cultura e paisagem como nos tempos do Tropeirismo, e esse lugar é conhecido como "Coxilha Rica".

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Paisagem da Coxilha Rica em Lages - SC

Paisagem da Coxilha Rica em Lages – SC

No município de Lages, mas longe cerca de 70km do centro, por caminhos difíceis e inóspitos, e por onde passaram muitas comitivas de tropeiros desde meados do século XVIII, enfrentando o tão temido “Passo da Morte”, que é a travessia do Rio Pelotas e divisa com o estado do Rio Grande do Sul. Banhada ainda pelos rios Pelotinha, Lava-Tudo, e inúmeros arroios, todos afluentes do Pelotas/Uruguai. Sua estrada principal é também localmente chamada de “corredor”, e no passado Caminho do Viamão, região que deu a luz Anita Garibaldi, e também ao presidente Nereu Ramos. Está lá, assim como há 200 anos, com seus campos calombados, pedregosos e amarelados de perder de vista.

Só a história me motivou ir, pois durante minhas pesquisas não encontrei detalhe algum sobre o que teria, como chegar, onde ficar, onde comer, essas coisas… Mas mesmo assim e com uma foto de um corredor de taipas na cabeça, parti de Curitiba com minha poderosa (Falcon 400cc), sentido Lages pela BR 116, levando muita coragem, salame, água, doce de amendoim e bateria pra máquina fotográfica.

Essa aventura daria um livro, mas vou tentar ser breve. Descobri o começo do caminho perguntando para um senhor taxista do ponto ao lado da Catedral de Lages, assim: Como chego na Coxilha Rica? Franzindo a testa e apertando os lábios o bom velho apontou para umas montanhas ao fundo dizendo. – Fica pra lá daquela serra, mas é longe…

Passei num posto de combustível, e levei comigo gasolina suficiente para queimar todo meu caminho de volta, até Curitiba, talvez. Logo nos primeiros quilômetros a paisagem serrana começa mudar, ficando cada vez mais limpa, com campos naturais abertos, e um cheiro indescritível. O famoso corredor de pedras também não demora muito aparecer. Chego no primeiro vilarejo, cerca de 40km depois, Morrinhos. Uma igreja, uma escola, crianças brincam no horário de recreio/almoço.

Igreja de Morrinhos - Coxilha Rica - Lages- SC

Igreja de Morrinhos – Coxilha Rica – Lages- SC

Sigo meu rumo, sem pressa. Já estava onde tanto queria chegar.

Corredor de Taipas - Coxilha Rica - Lages - SC

Corredor de Taipas – Coxilha Rica

Alguns quilômetros depois alcanço uma nova comunidade, chamada São Jorge. Uma igreja, um bolicho (bar com uma mesa de sinuca), algumas casas. Lá faço amizade com Seu Aldo, senhor muito simpático e acolhedor, que nem precisei me esforçar muito pra ele logo oferecer pouso em sua casa. Guardo comigo alguns vídeos que fiz na casa dele com os animais, a chuva lá fora, as taipas, e até uma entrevista tímida. Prometo que edito logo e posto como complemento para esse texto. Guardo no coração uma saudade tamanha desse senhor, que nunca tinha me visto na vida, que me vendo todo sujo, empoeirado de estrada, barba por fazer, me tratou como um filho.

Seu Aldo

Seu Aldo – Coxilha Rica

Continuei viagem no dia seguinte sentido Rio Pelotas, sempre seguindo pelo corredor principal. Cheguei na última comunidade, Faxinal ou mais conhecida como Bodegão. O Bodegão da Dona Helena.

O Bodegão - Coxilha Rica - Lages - SC

O Bodegão – Coxilha Rica

Por ai comi, bebi, dormi. Mas entre tudo isso gastei algumas horas conversando com Dona Helena, uma verdadeira heroína, que “oficialmente” é a única pessoa que recebe os aventureiros que por lá chegam.

Dona Helena - O Bodegão

Dona Helena – O Bodegão

O trecho de ida da viagem só acabou no Passo Santa Vitória, antigo Passo da Morte, no rio Pelotas, depois de 95km de estrada de chão, mais uma caminhada de uns 5km a pé até a margem do rio. Mais tudo isso na volta, e muitos detalhes que deve ser contados de outra forma mais prolongada.

Esse povo que ainda resiste por lá, grande maioria vive da pecuária, como é o caso do Seu Aldo, mas nem tudo por lá são flores e campos bonitos. Sua gente vive tempos de incertezas sobre a implantação de uma grande hidrelétrica no Rio Pelotas, que vai alagar uma longa extensão de terras, matar muita árvore, afetar a vida animal, além de provavelmente mudar o clima que pode prejudicar as pastagens naturais.

Sem contar ainda que muitos proprietários de fazendas estão infestando aqueles campos com pinheirinho americano, o pinus. Árvore exótica, conhecida por prejudicar o solo e consumir água.

Turisticamente essa região tem um potencial enorme, tanto pela beleza quanto pela história, mas isso não é explorado, mesmo com o atual governador do estado de Santa Catarina sendo um dos fazendeiros.

Conheci pessoas maravilhosas por lá, gente que ama e respeita aquela terra, mas que não tem voz para defendê-la. A mensagem que deixo para você que de alguma forma chegou até esse artigo e leu até aqui, é que se quiser conhecer a Coxilha Rica, vá sabendo das dificuldades de acesso e que não terá luxo algum, mas que com certeza voltará outra pessoa.

Procure “O Bodegão” no Google Maps.

Mais algumas fotos:

Mureta de Taipa

Taipas

Gralha Azul

Estradas da Coxilha Rica

Morrinhos - Coxilha Rica

Corredor de Taipas

Campos da Coxilha Rica

Tombamento do Passo Santa Vitória

Passo Santa Vitória

Coxilha Rica

Rio Pelotinhas

Linha Férrea - Coxilha Rica

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